O que encontrar do outro lado da esquina... uma luz, um amor, um sonho, um silêncio, um verbo ou uma conjunção que conecte dois mundos?



terça-feira, 23 de agosto de 2011

E enquanto isso...



As preces que sobem
pela escada do campanário
evaporam-se, a chuva cai
sobre um ninho de gárgulas sem asas
a esperança se afoga
no olhar do indigente
onde o céu costuma a sorver
gotinhas de solidão

E o silêncio das almas
perdidas
num beco de respostas
sem perguntas
vende-se fé e carícias a preço simbólico
um pastor e uma puta disputam a esquina.
Tem fome
o homem que caminha,
levando nas mãos seus olhos fechados,
não sabe de abismos na senda.
Guiada pelo som de trovões
uma tarde de verão se choca lentamente
contra o vazio de concreto.

Vida que de repente se revela
mediante a morte de cada dia
e a ressurreição de um pensamento que é
mais ou menos falésias
mais ou menos anos-luz
mais ou menos solidão de multidão.
A vida se rebela lentamente
contra o vazio de concreto.

E enquanto isso...

Idílicas palomas com seus idílicos parasitas
invadem livros de poesia
debaixo da discrição dos guarda-chuvas,
querem observar como fazem amor
uma jovem manca e um idoso impotente
e como viveram felizes para sempre.
Debaixo das luzes vermelhas da cidade
gemem os dedos manchados de nicotina
gemem os lábios de genebra e de carmesim
a cama mofada
os sonhos imolados
a solidão, uma vez mais,
geme o vibrador.

Às vezes a rotina cede seu lugar
a uma gravidez
a um beijo roubado
a um Picasso
a uma chuva de papel picado
a um anônimo, vendedor de flores
(às segundas, me amanhece e me ama
e vai embora antes do café-da-manhã e da mentira)
a um corpo crucificado
às crianças abandonadas,
amarão e foram amadas?
onde estão os filhos do nosso pai
os herdeiros do seu espírito sem ouro?
Não. Não há perguntas
no beco de respostas.

Deixe que as pombas observem
o teatro dos poetas em transe
com seus amores em migalhas,
até que o tocar dos sinos
as afugente.
Jamais fecham-se as cortinas.

Sinais de fumaça, o que tentam dizer?
uma boca que se move e se dissipa
a compreensão não é bem-vista
há séculos, só quer dizer:
"quero amar-te"
(gostava de aspirar cinzas de um amor bravio
e espirrar ânforas de Pandora).
A língua de Deus realiza a fagocitose
de um mundo estranho e a palavra se alimenta
da fé de um papel em branco
que voa sobre nossas cabeças
que voa sobre o campanário
e cai rendido aos pés do indigente.




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