O que encontrar do outro lado da esquina... uma luz, um amor, um sonho, um silêncio, um verbo ou uma conjunção que conecte dois mundos?



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A Arapuca

E inventou uma nova distração. Comprou uma casinha de madeira para pássaros, com somente um saguão e um telhado com forma triangular e colocou-a no terraço. No vestíbulo, que é onde começa e termina a casinha, pôs um amontoado de alpiste e um potinho com água. Em frente à porta-janela da casa, uma mini-filmadora meio escondida dentro de um vaso de planta, conectada com outra câmera na sala do casarão. Quis fazer um espécie de "Big Brother" dos pássaros.

Filmou o barulho do vento remexendo o alpiste, as folhas voando sem direção, algumas formigas fazendo sua cruzada sobre o telhado, o baile da chuva, a fusão do sol com a neve; porém os pássaros, quando aterrissavam no terraço, ou seja, as raras vezes que apareciam, aproximavam-se desconfiados, cheiravam a casinha e observavam as imagens ao seu redor para depois fugir da ameaça invisível.

"Eles percebem que há alguém esperando por eles", eu lhe disse, "eles notam que algum olho os observa ou que talvez aquele vaso de planta esteja meio fora de lugar. Há algo novo no ambiente. Eles não gostam de perder a própria liberdade sendo observados assim e temem que suas imagens sejam capturadas para sempre. Talvez o instinto lhes diga que aquilo pode ser um gato faminto ou uma serpente venenosa, algo que venha atrapalhar sua singela hora de paz e refeição. Talvez os pássaros se sintam como nós nesse mundo, onde mesmo estando sozinhos, temos a impressão de estarmos sempre acompanhados, como se algum olho filmasse nossas vidas. Às vezes, notamos alguma câmera indiscreta, algum gato faminto ou alguma imagem que está fora do seu lugar habitual, num dado momento. É o medo do desconhecido."

Edgar encolheu os ombros, querendo fugir de alguma trapaceira verdade...e voaram seus pensamentos junto com os pássaros.

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