O que encontrar do outro lado da esquina... uma luz, um amor, um sonho, um silêncio, um verbo ou uma conjunção que conecte dois mundos?



sábado, 31 de dezembro de 2011

O Reino Oculto

Muito fundo, num poco de águas claras há um reino quase esquecido, onde habitam peixes dourados, cavalos marinhos, tartarugas azuis, ostras peroladas e sereias feiticeiras, todos muito pequeninos, quase invisíveis.

A sereia Rainha mora com suas irmãs e seus súditos pescadores no Palácio de Corais e Cores, sem portas fechadas, com muitas janelas abertas atravessadas pelos olhares de tubarões amarelos, guardas do reino. O palácio tampouco tem teto, para que as sereias possam receber constantemente as luzes do sol e das estrelas marinhas.

Todos são bem-vindos ao palácio, onde acontece uma vez por mês o evento mais esperado do pequeno mundo aquático: o baile das sereias. A banda das baleias toca canções borbulhantes que envolvem os golfinhos dançarinos e os outros convidados. Ninguém consegue ficar parado! No baile, a Rainha costuma entoar seu canto sereno e apaixonado, dedicado ao seu amado Poseidón, o deus dos mares.

O poço do nosso sítio sempre recebe uma chuva de moedas, porque a gente grande pensa que lançando-as na água, as sereias vão recolhê-las e em troca vão trazer presentinhos do reino perdido, tesouros de navios afundados. Gente grande não entende os mistérios do poço, não sabe que todos os domingos ensolarados as sereias nadam até a superfície e cantam muito alto com suas vozes agudas e mágicas, atraindo para si os pássaros. Suas mãos estão quase sempre cheias de moedas e as sereias as distribuem entre as gaivotas, pombas, andorinhas, cegonhas, que as levam em seus bicos para as crianças pobres de outros mundos quase esquecidos.

Eu e meu irmão fazemos barquinhos de papel, que pendurados num barbante, navegam nas ondinhas do poço. Brincamos de ser marinheiros e todos os domingos de manhã esperamos ouvir o doce canto da sereia Rainha, que desperta os anjos que voam junto a outros pássaros.


El Reino Oculto

Muy hondo en un pozo de aguas claras hay un reino casi olvidado, donde habitan peces dorados, caballos marinos, tortugas azules, ostras perladas y sirenas hechiceras, todos muy pequeñitos, casi invisibles. La sirena Reina vive con sus hermanas y sus súbditos pescadores en el Palacio de Corales y Colores, sin puertas atravesadas por las miradas de tiburones amarillos, vigilantes del reino. El palacio no tiene techo, para que las sirenas puedan recibir constantemente las luces del sol y de las estrellas marinas.

Todos son bienvenidos al palacio, donde ocurre una vez por mes el evento más esperado del pequeño mundo acuático: el baile de las sirenas. La banda de las ballenas toca canciones burbujantes que envuelven delfines bailarines y los demás invitados. Nadie puede quedarse parado! En el baile, la Reina suele entonar su canto sereno y apasionado a su amado Poseidón, el dios de los mares.

El pozo de nuestra finca siempre recibe una lluvia de monedas, porque la gente grande cree que lanzándolas al agua, las sirenas las recogerán y le traerán regalitos del reino perdido, tesoros de navíos hundidos. Gente grande no entiende los misterios del pozo, no sabe que todos los domingos soleados, las sirenas nadan hacia la superficie y cantan muy alto con sus voces agudas y mágicas, atrayendo a los pájaros. Sus manos están casi siempre llenas de monedas y las sirenitas se las dan a las gaivotas, palomas, golondrinas, cigüeñas que las llevan en sus picos a los niños pobres de otros mundos casi olvidados.

Mi hermano y yo hacemos barquitos de papel que penden de un bramante y navegan en las olitas del pozo. Jugamos a ser marineros y todos los domingos por la mañana, esperamos oír el dulce canto de la sirena Reina que despierta los ángeles que vuelan junto a otros pájaros.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Cordão Umbilical



Palmas das mãos
pombas negras
pó de séculos
força, luta, candura
teu corpo num punho
o tempo num punho
o destino num punho

corte
cordão umbilical

silêncio de sílabas
escapam da boca
do peixe pela boca
escapam borboletas

corte
exaltação

o sol expira
a lua inspira
a alma fumaça
que aspira o céu
a pele cinzas
que traga o mar

corte
natureza

línguas de ondas te acariciam
léguas de azul te darão
o ameno caudaloso rio,
cuja margem de pétalas de rosas
é o tapete macio 
dos teus pés cansados




quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Cordón Umbilical



Palmas de las manos
palomas negras
polvo de siglos
fuerza, lucha, candor
tu cuerpo en un puño
el tiempo en un puño
el sino en un puño

corte
cordón umbilical

silencio de sílabas
escapan de la boca
del pez por la boca
escapan mariposas

corte
exaltación

el sol expira
la luna inspira
el alma humo
que aspira el cielo
la piel cenizas
que traga el mar

corte
naturaleza

lenguas de olas te acarician
leguas de azul te regalarán
el ameno caudaloso río,
cuya orilla de pétalos de rosas
es la alfombra suave
de tus pies cansados