O que encontrar do outro lado da esquina... uma luz, um amor, um sonho, um silêncio, um verbo ou uma conjunção que conecte dois mundos?



domingo, 25 de novembro de 2012

Atrás da Cortina de Fumaça



Durante muitos anos, alguma pessoa perdia a luz e a inocência em seu olhar.

Era uma tarde úmida que desembocava na casa grande de veraneio, às margens de um mar agitado. Depois de almoçar, alguns hóspedes dormiam profundamente, enquanto outros ia às ruas, fazer compras, ou se deitavam em espreguiçadeiras, esperando o pôr-do-sol.

No entanto, aquela voz amigável e convincente soou de novo bem perto do seu ouvido: é como um despertador quando toca às primeiras horas do dia; é o eco que se agarra a cada canto frio do seu quarto; são as carícias fortes na pele imatura e suave, nos pés pequenos com areia entre seus dedinhos esticados para cima. “Era só um jogo”, dizia a voz, “um jogo de confiança...como uma boneca bonita que deixa ser penteada, vestida, que deixa que movam seus braços e suas pernas, se deixa manipular.” Tudo era simples, mas tinha que seguir as regras do jogo. As mãos entram na colméia para colher o mel. “Você só tem que aceitar que eu farei com que se sinta muito bem. Não é divertido? Mas é nosso segredo”, apertava suas mãos, enquanto sussurraba em tom grave, sufocando o gemido, sufocando com seu hálito.

E envolvida na dúvida que alterava o sentido de todas as coisas, alguma pessoa fechava as pálpebras, pensando que embora fosse estranho, gostava daquele jogo. Ainda não conheciam a palavra “culpa”. Contudo, quando a voz ia embora e fechava a porta, abria os olhos sem compreender bem o que tinha acontecido.

Certo dia pensou em contar a seus amigos sobre o jogo mais estranho do mundo, mas desistiu, aqueles bobos nem sabiam o que era um beijo de amantes. “E para os adultos?”. Ah...estes não sabiam que nada sabem, não iam acreditar, não confiam cegamente.

Além disso, uma das regras do jogo era o silêncio, de mãos dadas com uma solidão que emerge do segredo compartilhado.

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