O que encontrar do outro lado da esquina... uma luz, um amor, um sonho, um silêncio, um verbo ou uma conjunção que conecte dois mundos?



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O Menino Pássaro

…era ainda muito pequeno e gostava de brincar com a natureza, tentando descobrí-la, correr entre troncos infinitos que formavam um corredor de árvores frondosos. Gostava de se perder nesse labirinto fresco, esverdeado, de ar puro. Quando encontrava a saída, deitava seu cansaço na imensidão do tapete de erva úmida, que às vezes crescia entre as árvores, como se fosse uma ilha no oceano, um oásis no deserto. Ali, deitado de barriga para cima, sentia o calor do sol no seu rosto e fazia um novo caminho para as formigas que desenhavam o contorno do seu corpo na terra, como ele fazia, quando contornava suas mãos no papel, com um lápis de cor.

O lago onde muitas vezes se banhava no verão, era o céu que podia tocar com seus pés, espelho de seus sorrisos e de suas lágrimas, poço de mistérios da floresta, testemunha dos seus gritos e gargalhadas.

Todas as tardes, ouvia o canto dos passarinhos, imaginando seus diálogos, compreendendo seus comandos.Brincava de distinguir suas vozes, reconhecendo em cada um, conjunto de várias notas musicais. Não compreendia por que sua mãe ralhava com ele, dizendo que deveria jogar bola com outras crianças ou participar em competições esportivas…Mas nao queria competir, perder ou vencer, só desejava estar livre, pegar com os olhos o adejo dos beija-flores, as longas asas dos albatrozes, as gaivotas, águias, borboletas e tudo que voasse naquele azul. Seu maior desejo era perseguir o vento e abraçá-lo.


Perguntou a sua mãe: “ Por que o vento não deixa que eu toque a pele dele?”. Sempre tentava agarrá-lo, corria atrás das folhas secas levadas a todos os cantos pelos redemoinhos (que subiam e desciam ao chão, traçando espirais; caídos, esgotados – o menino, as folhas e o vento – logo se levantavam com um rápido impulso.
“Por que não poderia domar o vento?”, a mãe com um olhar indiferente diante da pergunta do filho, lhe disse que parasse de falar bobeiras e que ajudasse o avô a trabalhar no jardim. O menino não se conformava em ter sempre a mesma resposta e um dia decidiu capturar seu sonho.

Durante uma noite estrelada e muitas outras noites com estrelas e lua escondidas, pulava a janela furtivamente, transportando o canário que dormia ali dentro. Sentava-se de cócoras, no telhado vermelho da sua casa e observava o espaço, como se fosse um astrônomo. Numa daquelas noites, quando os galhos das árvores dançavam e as roupas balançavam no varal, o menino abriu a portinha da gaiola e esperou que o vento viera abraçar seu amiguinho. Talvez quando o senhor vento chegasse, poderia agarrá-lo rapidamente e guardá-lo na gaiola. Assim o fez, ZAP!!!, aprisionou um pouco do vento e devolveu as asas ao seu velho canarinho.

Dias e noites passaram e o menino continuava mantendo a gaiola no seu quarto e a ilusão no seu peito. Apesar da mãe estar zangada, pois o filho tinha deixado o pássaro da família fugir, o menino se sentia muito orgulhoso – nao por ter dado a liberdade ao canarinho, mas por ter retido algo muito mais valioso: o indomável vento. No entanto, nao contava esse segredo para ninguém, era um segredo só dele.

Noites e semanas passaram e ter o vento ali, adormecido, nao era mais divertido do que vê-lo livre e veloz, acariciando seus cabelos, varrendo seu telhado, assobiando e o desafiando a perseguí-lo, voando por terras e nuvens desconhecidas. O menino percebeu que não valia à pena guardá-lo, prendê-lo no seu coração, para que só fosse dele. Ele queria misturar-se com ele, ser só movimento, criar asas para levitar e pousar, se deixar levar como as folhas do outono, como as sementes que um dia foram semeadas.

Observou durante meses, os movimentos, posições e costumes dos pássaros, subiu os montes, correu velozmente, pulou longas distâncias, moveu seus braços freneticamente, caiu, se feriu, mas se levantou, pronto para uma nova tentativa de vôo. Comeu menos guloseimas, pois desejava estar mais magro e leve, podendo decolar facilmente. Mas todas as tentativas foram inúteis.

Um dia de julho, o cheiro da tempestade e o uivo do vento pediam ao menino que se aventurasse e os acompanhasse. Finalmente estava pronto, acabara de fabricar asas com arame, papel e folhas das árvores, coladas em cada página. Cada folha como se fosse uma letra que um dia contaria a outros meninos sua história. Pendurou as asas nos seus ombros, como costumava fazer com sua mochila, e esta noite, do seu telhado, correu, correu tão rápido quanto suas pernas permitiam para lançar-se ao acaso, aos bracos da ventania. Com os olhos fechados, se sentiu agasalhado pelo ar quente que o levava para o alto. Ao abrir os olhos, viu cair as folhas de suas asas deixando rastros do seu caminho até o céu. Era livre e admirava os pássaros e os outros seres noturnos que voavam ao seu lado. Tantas vezes tinha olhado para eles, do chão, bem distante, quando eram quase invisíveis, incompreensíveis. Agora os via de maneira diferente, via verdades que jamais tinha imaginado que pudessem existir. Via que o sonho de caminhar com o vento só era possível quando ele fosse em busca dele e não capturando-o para si.

O menino agora era o vento e conquistava montanhas, mares e horizontes. A família perdeu uma vez mais para o mundo, um de seus passarinhos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

El Niño Pájaro


…era aún muy pequeño y le gustaba jugar con la naturaleza, intentando descubrirla, correr entre troncos infinitos que formaban un pasillo de árboles frondosos. Le gustaba perderse en ese laberinto fresco, verdoso, de aire limpio. Cuando encontraba la salida, acostaba su cansancio en la inmensidad de la alfombra de hierba húmeda, que a veces crecía entre los árboles, como si fuera una isla en el océano, un oasis en el desierto. Allí, tumbado boca arriba, sentía el calor del sol en su rostro, y hacía un nuevo sendero para las hormigas que dibujaban el contorno de su cuerpo en la tierra, como él cuando contorneaba sus manos en el papel , con un pincel. El lago, donde muchas veces se bañaba en el verano, era el cielo que podía tocar con sus pies, espejo de sus sonrisas y lágrimas, pozo de misterios de la floresta, testigo de sus gritos y carcajadas. 

Todas las tardes oía el canto de los pajaritos, imaginando sus diálogos, comprendiendo sus comandos. Jugaba a distinguir sus voces, reconociendo en cada uno el conjunto de varias notas musicales. No comprendía porqué su madre le echaba una bronca, diciendo que debería jugar a la pelota con otros niños o tomar parte en competiciones deportivas...Pero no quería competir, perder o vencer, sólo deseaba estar libre, atrapar con los ojos el aleteo de los picaflores, las largas alas de los albatros, las gaviotas, águilas, mariposas y todo lo que volara en aquel azul. Su mayor deseo era perseguir al viento y abrazarlo.


Le preguntó a su madre “¿Por qué el viento no me deja tocarle la piel?”. Siempre intentaba agarrarlo, corría detrás de las hojas secas llevadas a todos los rincones por los remolinos (que subían y bajaban al suelo), trazando espirales; caídos, agotados –el niño, las hojas y el viento- pronto se levantaban con un ligero impulso.
“¿Por qué no podría domar al viento?”, la madre con una mirada indiferente ante la pregunta del hijo, le dijo que se dejara de hablar tonterías y que le ayudase al abuelo a trabajar en el jardín. El niño no se conformaba con tener siempre la misma respuesta y un día decidió capturar su sueño. 

Durante una noche estrellada y muchas otras noches con estrellas y luna escondidas, saltaba furtivamente por la ventana, transportando la jaula con el canario que dormía allí dentro. Sentábase en cuclillas, en el rojo tejado de su casa y observaba el espacio, como si fuera un astrónomo. En una de aquellas noches, cuando las ramas de los árboles bailaban y las ropas oscilaban en el tendedero, el niño abrió la pequeña puerta de la jaula y esperó a que el viento viniera a abrazar su amiguito. Quizás cuando el señor viento llegase, podría atraparlo rápidamente y guardarlo en la jaula. Así lo hizo, ¡¡¡ZAP!!!, aprisioo un poco del viento y le devolvió las alas a su viejo canarito.

 Días y noches transcurrieron y el niño seguía manteniendo la jaula en su habitación y la ilusión en su pecho. Aunque la madre estuviera enfadada, pues el hijo había dejado escapar el pájaro de la familia, el niño se sentía muy orgulloso – no de haberle dado al canario la libertad, pero de haber retenido algo mucho más valioso: el indomable viento. Sin embargo, no se lo contaba a nadie, éste era su gran secreto.
o se sentía muy orgulloso – no de haberle dado al canario la libertad, pero de haber retenido algo mucho más valioso: el indomable viento. Sin embargo, no se lo contaba a nadie, éste era su gran secreto.

Noches y semanas transcurrieron y tener el viento allí adormecido no era más divertido que verlo libre y veloz, rozando su pelo, barriendo su tejado, silbando y retándole a que le persiguiese, volando por tierras y nubes desconocidas. El niño se dió cuenta de que no valía la pena guardarlo, encerrarlo en su corazón para que sólo le perteneciera. Le gustaría mezclarse con él, ser sólo movimiento, crear alas para levitar y posar, dejarse llevar como las hojas del otoño, como las semillas que un día fueron sembradas.

Observó durante meses los movimientos , posiciones y costumbres de los pájaros, subió los montes, corrió velozmente, saltó largas distancias, movió los brazos freneticamente, se cayó, se lastimó, pero se levantó, listo para un nuevo intento de vuelo. Comió menos golosinas, pues deseaba estar más delgado y leve, pudiendo despegar fácilmente. Pero todos los intentos habían sido inútiles.


Un día de julio, el olor de la tempestad y el aullido del viento le rogaban al niño que se aventurara y les acompañara. Por fin estaba listo, acabara de fabricar alas con alambre, papel y hojas de los árboles, pegadas en cada página. Cada hoja como si fuera una letra que un día les contaría a otros niños su historia. Colgó las alas en los hombros, como solía hacer con su mochila, y esta noche, desde su tejado, corrió, corrió tan rápido como sus piernas lo permitieron para arrojarse al acaso, a los brazos del ventarrón. Con los ojos cerrados, se sintió arropado por el aire caliente que le transportaba muy alto. Al abrir sus ojos, vió caer las hojas de sus alas dejando huellas de su camino hacia el cielo. Era libre y admiraba los pájaros y los demás seres nocturnos que volaban a su lado. Tantas veces les había mirado de lejos, desde el suelo, cuando eran casi invisibles, incomprensibles. Ahora los veía de manera distinta, veía verdades que jamás imaginara que pudieran existir. Veía que el sueño de caminar con el viento sólo era posible cuando él se fuera a buscarlo y no capturándolo para sí. 

El niño ahora era el viento y conquistaba montañas, mares y horizontes. La familia perdió una vez más para el mundo uno de sus pajaritos.