O que encontrar do outro lado da esquina... uma luz, um amor, um sonho, um silêncio, um verbo ou uma conjunção que conecte dois mundos?



segunda-feira, 25 de maio de 2015

Pólen de Primavera


Encontrei tuas cartas de amor,
sem tê-las procurado,
orações devotas para as deusas
do teu tempo e de tua casta,
putas pérfidas banais
- fugaz é o tempo que revela uma alma -
pântanos subterrâneos de palavras suaves
onde tuas amantes se afogam
tal qual a flor de Narciso.

Tu não me querias, tu não me vias,
quando me olhavas atrás da bruma,
enquanto teu sexo empurrava o meu
e penetrava no mais fundo
de algum ser desconhecido.

Porém eu te amei solitária
com essa solidão que nasce manca
e nos devora e nos descarta.
Amei a aspereza das carícias
e o abraço gélido que me abrasava.
Fazíamos amor e as mentiras
escorriam como cinzas
da morte entre os dedos.

Quando tudo acaba e
só o fim persevera
às vezes sou luz
que grita no escuro
do teu quarto,
às vezes escuridão
que cala na claridade
dos teu olhos opacos.
Sempre te conto em silêncio
histórias de amor secretas,
cujo desfecho era o abandono
nas vielas sem saída
do teu pensamento.

Tu não me querias assim?
Como um lençol de linho
que cobre as feridas?
Como um lençol de seda
que cobre a tua cama
e esconde as migalhas de tua alma
- essas migalhas lançadas
a cada mulher amada -
e o cadáver de sentimentos
estirado sobre ela?

Haverá um muro que nos separa
para sempre um muro
entre o que é e o que jamais será.



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